Bora jogar na Mega-Sena?

Um dia chegaram até mim e perguntaram: "Você ainda acredita na Mega-Sena?". Essa pergunta me pegou de surpresa e não consegui formular uma resposta imediata, porque, para mim, ela simplesmente não fazia sentido. Como assim "acreditar"? Trata-se de um jogo onde a probabilidade estatística de ganhar é de 1 em 50 milhões. O resultado entre jogar e não jogar é praticamente o mesmo; a diferença real é que você termina o dia sete reais mais pobre e com uma chance infinitesimal do acaso te agraciar. Se me perguntassem se vale a pena, eu diria: você tem dinheiro para jogar fora? Pois a chance existe. Mesmo que quase nula, existe.

Isso me fez perceber algo maior: quem conhece os bastidores é visto como um sabotador da ilusão alheia. Para a maioria, o bilhete não é um papel térmico, é um amuleto. As pessoas estão vivendo a cena do "milagre iminente" enquanto eu estou lendo um gráfico probabilístico. No fundo, percebi que isso não é muito diferente da nossa vida. Tudo o que corremos atrás esperando dar certo é, de certa forma, uma aposta.

Foi ai que a ficha caiu: Quando entendi que a pergunta não era sobre materialidade, mas sobre uma narrativa simbólica. É sobre o universo te presentear, sobre números mágicos que apareceram em um sonho e a sensação de ser o protagonista de uma história onde você é merecedor do prêmio. Minha mente não funciona assim, mas percebi que as pessoas habitam esse simulacro místico porque possuem uma dificuldade de lidar com o acaso, com o caos e com o fato de que o universo é completamente indiferente à nossa existência.

Agora, sabe quem não é indiferente? Outros seres humanos. Nós manipulamos símbolos, a maioria sem saber o que significa, para organizar o roteiro da vida e fugir do vazio. É aqui que muitos materialistas cometem um erro. Ao ignorarem o símbolo, eles negam a matéria do sentimento, da memória. Se uma história altera a forma como alguém atua no mundo, essa história possui materialidade. O "mundo mágico" é, na verdade, uma tecnologia de conforto e também, de confronto, uma forma de organizar o caos.

Quinze anos atrás, eu seria a pessoa que gritaria aos quatro ventos que Deus não existe. Mas hoje vejo que "Deus" existe e é uma entidade fortíssima. As pessoas se matam e se sentem melhor em nome dessa egrégora. Nunca foi sobre ler a Bíblia, mas sobre o que faz o ser humano se sentir protegido. É a minha pedrinha sonsa que me faz sentir diva, é o meu crucifixo que me protege nas ruas de Ouro Preto, é o "bom dia" protocolar ao vizinho.

Sempre recebi informação demais em meu corpo por ser sensível e tentei filtrar tudo pela lógica. Acontece que nem tudo funciona assim. A natureza é lógica, mas quando falamos de energias compartilhadas e símbolos, entramos no campo da egrégora. A magia é uma das únicas coisas capaz de resfriar uma mente diante do absurdo. Pode não ter lastro na física, mas é um santo remédio para a ansiedade.

A Zeladora

Leah Amor